Começou a fazer frio, daquele tipo perfeito que te permite usar o edredom de noite (não daquele tipo que te engana fazendo você acreditar que pode usar o edredom até que você acorda desidratada de tanto suar debaixo dele), portanto, um frio sincero. Um frio que me levou até a levantar da cama (local onde eu estava estrategicamente enrolada debaixo do edredom, diga-se de passagem) pra pegar uma meia.
São 04:50 da manhã de um sábado e nessa situação que muitos jovens descreveriam como deprimente e que faria com que eles se lamentassem nas redes sociais com inveja dos amigos bêbados mandando mensagens de texto com erros de ortografia (do tipo que almeja revelar as doses etílicas ingeridas e não do tipo que mostra os problemas de educação do país), só o que eu consigo fazer é pensar o quanto eu odeio meias com canos curtos, mais precisamente, o que a minha mãe denomina de 'meia soquete'. Pensem bem e entendam o motivo do meu ódio: a. elas são mesquinhas, só fazem o necessário cobrem os pés e deixam os tornozelos no frio; b. Quando começam a ficar velhas e o elástico começa a afrouxar, elas vão deslizando até ficar na metade do pé e: b.1. Se perdem na cama no meio da noite fazendo você acordar com pés gelados; b.2. Deslizam dentro do sapato quando você está na rua, fazendo com que você fique agoniada pra ajeitá-las discretamente, quando, na verdade, você sabe que nunca será possível ser discreta no ato de meter sua mão no seu calçado no meio de um lugar público porque, convenhamos, isso é mesmo praticamente um ato de selvajaria.
Queria estar desesperada achando que não vou aproveitar direito minha juventude só porque não estou bêbada e falando alto em algum lugar superpovoado e sem lugar pra sentar, como 90% das pessoas da minha idade estariam nesse momento.
A verdade é que desde que eu acumule um estoque grande de fonte de cultura pop em casa (livros, CDs e filmes), eu sinto que posso ficar refugiada em casa por dias. Acho que se houvesse um ataque nuclear e alguém houvesse cautelosamente reunido kits de primeiros socorros e comida suficiente pros próximos anos de vida na terra, essa pessoa não se sentiria tão precavida quanto eu. É que aí está o problema na seleção de fontes de cultura pop: elas podem ser tão bem escolhidas que de repente você percebe que envelheceu alguns anos e só o que lembra de ter feito é ter ouvido bandas novas (o que é o retrato da minha adolescência, por sinal) ou podem te levar ao tédio em questão de segundos. A seleção é, portanto, quase como desarmar um fuzil de olhos fechados esperando pelo melhor.
E por mais que essa comparação que, eu admito, tenha sido exageradamente enaltecedora em relação à atividade de seleção de cultura pop, ela não deixa de ser um retrato da classe média, porque, convenhamos, nossa vida gira em torno de cultura pop. Trabalhamos para nos dar ao luxo de nos divertir com cultura pop (adquirindo, tendo tempo pra ouvir/ler/assistir), nos reunimos para falar das nossas preferências na cultura pop e, convenhamos, a maioria dos nossos amigos somente começou a ocupar essa posição nas nossas vidas pela quantidade de preferências em comum.
E, tudo bem, pode achar que eu tô exagerando ao falar de cultura pop, mas antes, favor compare o tempo que você passa falando dela e o tempo que você passa falando dos problemas da humanidade.
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